A HQ Alho Poró, da Bianca Pinheiro

No post de hoje, eu venho falar sobre uma HQ de uma quadrinista que eu já falei aqui. Alho Poró da Bianca Pinheiro é seu quadrinho mais recente e foi publicado de forma independente por financiamento coletivo no Catarse. Caso você não conheça, a Mamá já falou sobre o Catarse aqui nesse post. Muitos quadrinhos independentes são publicados por financiamento no Catarse, então fica de olho nos nossos posts sobre quadrinhos brasileiros que muitos vieram de lá também.

Como eu já disse, essa não é a primeira vez que falo de algo produzido pela Bianca. No ano de estreia do blog e do nosso especial, o Pavê Trevoso, eu fiz uma resenha de Dora.

Quando eu li Dora, li sem expectativa nenhuma e me deixei levar pela tensão, suspense e a dúvida. Aproveitei a história conforme a narrativa ia se desenrolando e se desenvolvendo. Me prendeu de início ao fim e terminei a leitura completamente admirada pela inteligência de quadrinista da Bianca e pelo trabalho de uma qualidade excelente.

Dito isso, já sabia que seria mais dura lendo Alho Poró, esperando o tipo de jogo entre narrativa x visual que juntos formam uma combinação em que você não consegue parar de ler, totalmente envolvido na leitura. E felizmente, posso afirmar que isso não deixou de acontecer. Alho Poró me prendeu de início ao fim e ouso dizer que me deixou mais intrigada e curiosa para saber o que ia acontecer ainda mais do que em Dora.

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E é claro, já que estou falando dessa hq e li, é porque eu ajudei no financiamento do Catarse! Porém contribui apenas para o valor de versão pdf do quadrinho e é por isso que não trago fotos nem nada do tipo, mas o intuito foi justamente publicá-lo fisicamente. Em um dos pacotes de recompensa, a Bianca fez umas aquarelas lindíssimas, que são muito interessantes, lindíssimas e que me deixaram intrigada e fascinada desde o dia que ela foi mostrando. Mais pra frente eu volto para falar delas.

Bom, eu queria ler a história e ao mesmo tempo estava meio receosa, sem saber se ia gostar, por isso esse foi um dos motivos para eu ter apenas a versão em pdf.

Você pode conferir o vídeo de apresentação do projeto, prévias das primeiras páginas e mais informações aqui na página dele do Catarse.

A expectativa era alta e ao mesmo tempo meio baixa. Quando a Bianca lançou o projeto no Catarse, não deu pra entender bulhufas nenhuma do que seria exatamente a história. Teve uma prévia de uma das primeiras páginas também. Com isso eu fiquei apreensiva, porque pela primeira impressão, deu a entender que talvez poderiam ter mulheres não brancas nesse quadrinho. E com uma estética meio padrão e similar em relação à aparência física de estilo dessa hq, eu já fiquei atenta desde o começo. E receosa, porque ainda gosto muito do trabalho da Bianca, porém, não vou suavizar nenhuma crítica por isso. pag-2.jpg

Logo de primeira, a impressão que eu tive é que uma das personagens, a de camisa azul esverdeada, que se chama Denise (e só se sabe isso lá pelo fim), podia ter alguma ascendência leste asiática. Pela pele levemente amarela e alguns traços do rosto. Mas isso tá tão leve e não explicitamente explicado nem nada, que eu fiquei só no “acho” mesmo. (Porém no fim da leitura concluí que deve ter ascendência leste asiática). E já que eu comecei com esse assunto, já vou falar sobre a caracterização das personagens.

Basicamente, tem três personagens femininas principais no quadrinho, e pelo que entendi é que dessas três, uma é branca (a de blusa laranja), Márcia, outra (acho que) tem ascendência leste asiática (de blusa azul esverdeado), Denise e por fim, Brenda, negra e de blusa verde limão.

Durante o quadrinho todo, basicamente é a trajetória de Márcia e Denise do supermercado em busca de alho poró para fazer uma quiche e a volta no trajeto feito de carro até seu destino final. O quadrinho é lento, bem lento, mas não falha em deixar o leitor intrigado do começo ao fim. Até reforço dizendo que a leitura foi me deixando cada vez mais curiosa e intrigada, mais até do que quando li Dora, e olha que Dora é uma hq excelente. E isso aconteceu porque Alho Poró é bem mais misterioso também. Tudo parece bizarramente comum demais. Compra no mercado entre amigas, à procura de um ingrediente para tentar uma receita nova. Encontram o ingrediente, voltam para o carro e continuam conversando casualmente. O que tem demais? Sendo uma narrativa criada pela mesma cabeça que criou Dora, já se sabe que todos os elementos, desde os diálogos cotidianos, as cores leves, frias e com pouca saturação, a forma como vamos esperando e as coisas parecem estar suaves até então não é por acaso. E é assim que se vê como a inteligência em contar uma narrativa por meio de quadrinho ainda permanece nas mãos de Bianca Pinheiro.

Então é claro, que em algum ponto dessa história, tem uma virada na forma em que percebemos a história. E isso também é feita de forma gradual, até mesmo em conversas que parecem simples, comuns e sem nenhum propósito maior. Dá para perceber isso muito bem no momento em que Márcia está contando sobre brigas de escola para Denise.

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E bom, como eu disse acima, a premissa sem dar spoilers, é bem simples, não tem muito o que dizer além disso. Também não vou descrever nenhum spoiler maior, porque se você pretende ler essa HQ, vai perder todo o ritmo de narrativa e forma em como a Bianca constrói a tensão dentro do quadrinho dela. (P.S.: Essa não é uma hq de terror! A Bianca inclusive já avisou e falou um pouco sobre isso aqui. Ela disse que quem gostou de Dora iria gostar de Alho Poró também, por ter coisas similares, mas não é do mesmo gênero. Também aviso que Alho Poró é uma hq adulta e contém violência.)

Mas de forma geral, avaliando a história por completo, eu achei tanto boa, uma narrativa contada de forma inteligente e intrigante, que deixa o leitor curioso para acompanhar até o fim; tecnicamente em forma geral a Bianca se desenvolveu muito, tem muita dinâmica de cena, perspectivas e ângulos diferentes de quadros, dando mais profundidade e sensação realista à história, as cores e o estilo ajudam a compor a temática do comum também, poses de personagens muito bem trabalhadas dando a sensação de movimento – mesmo sendo uma narrativa fria e lenta. Quanto rasa e superficial.

No meio disso tudo tem a questão de ter personagens não brancas e também tratar de um assunto sério e nesse quesito eu achei bem raso e é por isso que no fim das contas, acaba me dando uma sensação vazia de superficialidade. Pontas soltas não são deixadas, mas algumas perguntas acabam ficando, porque algumas coisas ainda ficam no ar, porém a história não deixa de estar completa mesmo. Mas apesar de a Bianca tratar com cuidado a caracterização estética das personagens (que não caem em estereótipos racistas em algum aspecto físico), ainda é bem raso. Poucas vezes vemos os nomes das personagens, o que de repente traria mais força para o tipo de narrativa que ela criou, com protagonistas femininas. A Denise como eu disse, fiquei na dúvida por umas boas páginas, já que com essa caracterização física meio similar das pessoas, acaba que quase todo mundo parece branco mesmo. A Brenda só aparece na terceira parte do quadrinho, por exemplo, e já quase no fim. Dá para ver que cada personagem tem traços no rosto diferentes, mas pelo estilo do desenho fica tudo um pouco meio similar demais. Isso pode funcionar conceitualmente para coisas abstratas, objetos, ambientação ou outro tipo de coisa, mas não para personagens que são seres humanos. Porque somos muito diferentes e cada um tem suas peculiaridades, além da questão racializada. Então já acaba ficando meio raso nesse quesito. Além disso, o desenrolar da história muda de forma brusca – do lento para uma dinâmica mais rápida – tratando de um assunto sério, sem dar tantas informações ou profundidade à essa parte da narrativa. E sendo assim, fica muuito raso e superficial, se tivesse dado mais atenção a esses aspectos a HQ teria mais força e teria algo que a deixasse viva – como uma chama que não apaga.

Claro, a vibe de Alho Poró não tem o intuito a falar sobre alguma vivência não branca de pessoas não brancas, mas existem pessoas não brancas presentes então não vou deixar de avaliar como isso foi feito tanto no roteiro como no visual.

Então concluindo, sim, gosto muito do trabalho da Bianca Pinheiro, acho que é uma quadrinista excelente, que sabe contar sua história de forma visual muito bem e especialmente na forma de quadrinho. Isso é quadrinho de verdade, não apenas uma história ilustrada, dá pra perceber claramente nessa dinâmica de ritmo de narrativa e movimento de quadros. E por isso estar tão presente em Alho Poró, eu gostei bastante. Ao mesmo tempo em que eu achei que foi raso e um pouco superficial e que tem muito a melhorar, mas é uma história intrigante e que vai te deixar curioso para acompanhar até o fim.

Por fim termino voltando para as aquarelas! Porque esqueci delas não. Elas continuam sendo o que eu mais gostei no quadrinho. A dinâmica é incrível, o contraste entre cores, esse traçado, o encontro entre as duas. E isso é um tipo de chave importante para a história também. A Bianca colocou cada uma dessas aquarelas (tem umas 3 ou 4 no total mais ou menos) como transição de uma parte para outra no quadrinho e assim como ela fez em Dora, não foi à toa, além de estar intrigante esteticamente, também traz uma visualização de uma parte do quadrinho e que deixa a gente muito intrigado para saber aonde ela quer chegar com isso.

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Por fim, eu indico sim o trabalho da Bianca, como eu disse, ela é uma quadrinista de qualidade, isso não há dúvidas. Mas tive muitas ressalvas quanto a esse aqui e acho que está meio longe de ser absolutamente incrível. Porém ainda sim, se você gosta de quadrinhos e tá aí entediado, garanto que essa HQ vai te entreter.

fotobio27 Lari
meus textos | twitter | goodreads | filmow Designer gráfica, artista visual, ilustradora e aspirante a quadrinista. Faz dancinhas aleatórias pra tudo. Canta músicas icônicas da MPB para seus personagens preferidos como declaração de amor. Grita como forma de expressão.

 

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