Aprendendo a ser forte com crianças e foguetes: A beleza e inocência de Vejo você no espaço

vejo você no espaço

De vez em quando, gosto de pegar livros infantis pra ler e passar o tempo. É divertido poder voltar, pelo menos por um tempinho, lá pros dez, onze, doze anos e ver como as crianças dessa idade lidam com o mundo e com os seus mistérios. Eu sempre me surpreendo com o quanto a gente pode aprender com esses personagens e com Vejo você no espaço, do Jack Cheng (publicado aqui no Brasil pela Intrínseca), não foi diferente.

Peguei esse livro pra ler porque a capa era bonita e porque, de uns tempos pra cá, ando me interessando por ficção científica e astronomia e essas coisas todas (O último livro que eu li nessa linha foi justamente A longa viagem a um pequeno planeta hostil, da Becky Chambers, publicado aqui no Brasil pela Darkside – e até agora não consegui superar). E também porque parecia um livro infantil divertido com um protagonista não branco, descendente de filipinos.

Qual foi minha surpresa quando abri a primeira página e me deparei com um texto inteiro escrito em forma de gravação. Vejo você no espaço nada mais é do que a junção de todas as gravações que Alex Petroski, um garoto de 11 anos, faz em seu iPod de Ouro contando suas aventuras em um acampamento para fãs de astronomia e as consequências dessa viagem.

Alex mora com sua mãe em Rockview, Colorado, mas quando a oportunidade de ir em um acampamento de astronomia e lançar seu foguete surge ele resolve pegar o trem e ir sozinho mesmo pra lá. Seu plano é colocar seu iPod de Ouro, um iPod comum que ele pintou de dourado, no foguete e lançá-lo para os alienígenas que vivem no espaço sideral (e com quem ele conversa como amigos, constantemente perguntando-se como eles serão). São justamente essas gravações que vamos lendo ao longo do livro, quase como episódios de um podcast (e eu fiquei muito curiosa com um audiobook desse livro!!).

Mas calma lá. O iPod de Ouro te lembrou alguma coisa? Que tal os Discos de Ouro enviados nas sondas Voyager, lá em 1977, por ninguém menos que Carl Sagan? Sagan é o herói particular de Alex, sua principal inspiração e também a origem do nome do cachorro do garoto. Os tais discos de Sagan nada mais são do que discos de vinil contendo sons e imagens selecionados para mostrar a diversidade da Terra a quem (ou o quê) possa encontrá-los. Pensou em aliens? É essa mesma a ideia. Enquanto os Discos de Ouro tem sons como saudações faladas em 55 línguas, trovões e batidas do coração, Alex resolve fazer uma espécie de diário em áudio de sua jornada, além de complementos como “um homem apaixonado” e o som que as baleias fazem.

Alex é uma criança muito inteligente, mas ele tem apenas onze anos (e maturidade de, pelo menos, treze, como ele mesmo diz). E é muito bonito ver como ele age justamente como uma criança dessa idade deve agir. Apesar de acumular responsabilidades graças à saúde mental de sua mãe e o afastamento de seu irmão mais velho, que trabalha e mora em Los Angeles, Alex não hesita em chorar quando as coisas dão errada, não percebe a complexidade (ou, talvez, a artificialidade) das relações adultas ao seu redor e tem tanta fé em si mesmo e no mundo que não tem como não se sentir assim também.

Essa fé cega que Alex tem em si mesmo, nas pessoas que ele ama (mesmo quando ele as conhece a pouquíssimas horas) e no que ele acredita move não só os personagens do livro como nós, leitores, e trazem aquela esperança de que o mundo pode ser bom, afinal de contas.

Vejo você no espaço vai muito além de um lançamento de foguetes e uma criança empenhada – as aventuras que se desenrolam por conta de Alex e do que ele quer e acredita acabam sendo surpreendentes, ainda mais quando a gente lembra que esse menino tem só 11 anos. As chances dele conseguir enviar seu iPod de Ouro para o espaço para ser encontrado por aliens podem ser tão pequenas quanto as chances dos Discos de Ouro da Voyeger serem encontradas por qualquer um mas, mesmo assim, não tem como não torcer por ele. E por nós mesmos.

Emily
meus textos | twitter | instagram | goodreads
Graduada em Letras. Ama monstros e cachorros e, principalmente, lobisomens. Puxa o erre, adora parênteses e quase nunca usa o plural direito.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s