Adaptar é Sobreviver: a reinterpretação de livros em mídias diferentes

Semana passada lançou na Netflix um dos filmes mais aguardados do ano para mim — Annihilation. Se você acompanhou o blog, eu falei um pouco sobre o livro ano passado, e como eu adorei a maneira que o autor desenvolveu a história. Não sabia como iria ficar o conteúdo final do filme, ou como o diretor ia explorar os temas da mesma maneira evocativa que fez o livro.

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#pracegover: imagem do filme Aniquilação, com as cinco protagonistas de costas prestes a entrar em uma barreira que parece uma bolha de sabão.

O resultado foi que o filme, em trama, não tem nada a ver com o livro. Apesar de começar com a mesma premissa (uma bióloga que se voluntaria para uma missão perigosa na área X), o filme vai em uma direção completamente diferente. E no entanto, ao terminar de ver o filme, senti que ainda assim Alex Garland conseguiu passar a mesma mensagem que o livro trouxe, e explorar o mesmo tema de maneiras completamente diferentes.

E então me fiz a pergunta: o que exatamente faz uma boa adaptação?

Esse assunto em particular essa semana me pegou de jeito porque comecei a ver a nova novela das 6 da Globo que adapta as obras de Jane Austen em um contexto brasileiro. A Solaine fez uma thread ótima no twitter falando sobre a falta de representatividade na novela, e como isso realmente poderia ter sido adaptado para o contexto brasileiro. Isso é realmente uma grande falha dentro da Globo no geral, e não é a primeira vez que isso acontece. Eu não tenho muita propriedade pra falar sobre o assunto (então fica aqui aquela dica de sempre: sigam mulheres negras e ouçam o que elas tem a dizer), mas vou falar do outro lado da adaptação.

Já vi os fãs mais “puristas” da obra de Austen reclamando que irão desvirtuar o livro. Primeiro que o livro tem mais de 200 anos, e ele sempre vai permanecer lá. Ninguém vai desvirtuar o livro ao fazer uma adaptação da obra. Se você achar a adaptação ruim, sempre dá pra você voltar e pegar o livro. É o que eu digo a todo mundo. A obra original nunca vai deixar de existir. Precisamos acabar com esse conceito ridículo de que uma adaptação ruim irá “destruir” o livro. Não existe destruição de obras em nenhum desses casos.

Orgulho e Paixão

#pracegover: Thiago Lacerda e Nathalia Dill em cena como Elizabeta e Darcy na nova novela “Orgulho & Paixão”, que reinterpreta várias obras de Jane Austen.

O problema é que esse tipo de pensamento é perpetuado o tempo todo, e acaba vindo de um lugar bastante elitista. São os famosos “o livro é melhor”, para se dizerem muitas vezes superiores as pessoas que só veem o filme ou a série do qual a obra original foi adaptada. Esse pensamento elitista acaba restringindo muito o alcance a audiência da obra. Precisamos parar de ver adaptações do cinema como um inimigo, e começar a ver como um complemento.

Quando mudamos de mídia, a história automaticamente muda. Só Orgulho & Preconceito já teve milhões de adaptações diferentes, para os mais diferentes cenários. Seja em filme ou mini-série, ou chick-lit como o Diário de Bridget Jones ou websérie como The Lizzie Bennet Diaries, ou para outros livros YA ou rádio e agora até uma novela da Globo. Cada uma dessas adaptações escolhe um aspecto diferente da história para focar, e cada uma traz à luz um elemento novo. É óbvio que nenhuma adaptação ficará igual o original. Está longe de ser o objetivo de uma adaptação.

No geral, creio que as adaptações sejam um complemento à obra original. Jamais devem ser vistos como algo que seja fielmente feito como uma tradução, mas uma transliteração. O que importa é a mensagem ou o aspecto final que a obra quer passar, e não necessariamente como esta obra é passada. No caso de Harry Potter, por exemplo, muitas cenas e partes da trama foram alteradas nos filmes, mas jamais alteraram a mensagem do filme ou o essencial da obra. No caso do filme de Annihilation, o mesmo acontece — a trama é completamente diferente, e no entanto, ao terminar de ver o filme, eu tive exatamente a mesma sensação de quando eu terminei de ler o livro. Uma sensação de ter uma experiência inexplicável e de outro mundo, um maravilhamento estranho e incompreensível.

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#pracegover: boneco funko de Kylo Ren ao lado da novelização de Os Últimos Jedi

O contrário também pode acontecer. Gosto bastante de ler novelizações de filmes, e de como também podem trazer conteúdos novos para o filme e sentimentos que nem sempre vemos na tela e cenas deletadas. A última que estou lendo, a novelização de Os Últimos Jedi escrita por Jason Fry, adiciona uma nova dimensão aos personagens e também conseguimos ver cenas novas e coisas que não eram destacadas e evidenciadas no filme por falta de espaço. No fim, é uma adaptação fazendo o caminho contrário, preenchendo algumas lacunas e oferecendo outras perspectivas. E por incrível que pareça, raramente são melhores do que o filme.

Nem sempre as obras irão adaptar fielmente o roteiro como você crê que deve ser adaptado. Nem todos os aspectos do livro irão ser traduzidos fielmente para as telonas ou para qualquer outra mídia. Mídias diferentes exigem conteúdos diferentes, e sobrevivem de maneiras diferentes. É por isso que também gosto tanto de releituras, que proporcionam uma nova visão a histórias já conhecidas. Uma adaptação nunca deixa de ser uma releitura da obra, e a cada pessoa cabe interpretar da maneira que quiser.

É claro que todos temos nossas adaptações favoritas. Eu odeio o filme de Eragon, porque na época eu queria ver meu filme favorito nas telonas e a adaptação não fez jus a história. Ou a de Percy Jackson, que poderia ter sido muito mais fiel à história no geral. Mas também tenho minhas favoritas, como a de Jogos Vorazes ou a de Orgulho & Preconceito. Idealmente, a adaptação não precisa necessariamente ser fiel em todos os aspectos, e de todas as maneiras. Se a mensagem está lá, para mim está bom o suficiente.

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#pracegover: Katniss (interpretada por Jennifer Lawrence) segurando o seu arco e flecha apontado para algo que não podemos ver na tela.

Adaptar é sobreviver. É proporcionar mais conteúdo de tipos diferentes, é ver o mundo de uma nova forma. Uma adaptação não é ruim só por ser diferente. Precisamos parar com essa mentalidade de “eu espero que não estraguem o livro” só por mudarem apenas uma cena ou excluírem um personagem, e precisamos começar a apreciar que estamos vendo o livro ser reinterpretado de uma nova forma, e que mais pessoas possam apreciá-los.

Entendo de verdade que parece ser doloroso alguém mexer no seu livro favorito e arrancar algumas partes para fazer uma novela, ou só mudar todo o contexto da história e trazer para uma era moderna, por exemplo. Mas é assim que as histórias sobrevivem — mudando um pouco, adaptando-se para algo que mudou de forma mas não de essência.

Se tem alguma coisa que o filme de Annihilation nos ensina, é que a adaptação nunca deixa nada para trás. Apenas usa o que está ali para criar algo diferente. A essência em si continua a mesma, e só nos resta assistir ao espetáculo.

Laura
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Escritora com um sonho distante de ter um diploma de faculdade. Fã de Hamilton e Star Wars. Lê muito e dorme pouco. Loka de muitas coisas.

 

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