Tartarugas até lá embaixo é o melhor livro de John Green, mas ainda tem problemas

Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só conseguimos nos aproximar dela através de metáforas. Não temos como representá-la como fazemos com uma mesa ou um corpo. De certo modo, a dor é o oposto da linguagem.

P_20180128_132115_vHDR_Auto

[Descrição da imagem: Num fundo branco, aparece em destaque a capa do livro “Tartarugas até lá embaixo”, de John Green. A capa é bege e tem uma espiral na cor laranja afunilando-se enquanto chega à extremidade da capa. Ainda, é possível ver o selo da Editora Intrínseca e, também, ao lado do nome do autor, lê-se “autor de A culpa é das estrelas”.]

Resolvi começar o post de hoje com essa citação de Tartarugas até lá embaixo, do John Green, porque ela sintetiza o que é esse livro e o que John Green tenta fazer ao longo de suas 266 páginas.

Continuar lendo

A representatividade assexual em Sirens (e por que ela é tão importante)

Alguns anos atrás, descobri uma série nova no Tumblr. Até então, nada de novo. Boa parte das séries e desenhos que eu assisti nos últimos anos foram recomendações das pessoas que eu seguia no site. Cada uma me chamava a atenção por um motivo diferente, mas o motivo principal acabava sendo, sempre, um grande número de pessoas comentando os últimos episódios e fanarts lindos aparecendo na minha timeline (por que, né, ninguém é de ferro). Mas esse seriado em questão não era assim – pouquíssima gente falava dele e havia pouco material nas buscas. O que foi que me chamou a atenção para Sirens? Uma personagem secundária assexual e como um dos personagens principais lidou com isso depois de perceber que tinha uma quedinha por ela.

Ano passado o Paulo falou sobre assexualidade aqui no blog (o post é esse aqui e está bem completinho, pra quem tiver interesse), mas, só pra recapitular, assexualidade é uma orientação sexual (é o A no final do LGBTQA que, não, não está lá para os aliados) assim como hétero, bi, homo e pan, definida pela falta de atração sexual por outras pessoas. Não é celibato e também não é uma piada engraçadinha sobre comida ou falta de qualquer coisa. É algo válido, real e que pode mexer muito com a cabeça de uma pessoa que não tem muita informação, como qualquer outra orientação. A diferença? Pouquíssimas pessoas falam sobre isso. Eu mesma demorei anos pra descobrir que assexualidade existia e havia mais gente nesse mundão que partilhava disso.

sirens voodoo

Descrição da imagem: Voodoo, do ombro para cima, olha para alguém fora da cena. Seu cabelo loiro está preso em um rabo de cavalo e ela usa o uniforme azul marinho de paramédica.

Continuar lendo

Boicote a Ghost in The Shell (A Vigilante do Amanhã): o whitewashing em sua forma mais descarada

Vamos direto ao ponto: o filme live action Ghost in The Shell ou A Vigilante do Amanhã (como foi traduzido aqui no Brasil), estrelado por Scarlett Johansson, estreou ontem (30/03) nos cinemas. Com todo o burburinho que a produção vem tendo desde quando foi anunciado que ScarJo protagonizaria um clássico do mangá e animação japonesa, você com certeza já deve ter ouvido falar do filme. Hoje venho falar os problemas da produção e porque não devemos apoiar este longa metragem e não devemos ir assisti-lo no cinema – isso implica que tem um público que aceita e está disposto a pagar para ver isso. Produções feitas e estreladas por pessoas diversas e não brancas é que devem ter o nosso apoio.

O motivo principal e mais óbvio do problema do live action é justamente uma atriz branca ter sido escalada para representar uma personagem asiática, de ascendência japonesa. Se você acompanha o Pavê há algum tempo, sabe muito bem o quanto valorizamos e falamos sobre representatividade e diversidade aqui. Sobre a importância da representatividade, temos um post completo feito pela Bia e sobre outro caso de whitewashing de asiáticos em Hollywood, temos o post sobre Death Note da Laura.

Afinal, sobre o que é essa história? Ghost in The Shell é um mangá criado por Masamune Shirow. Se passa numa realidade futurística não tão distante, em que as tecnologias estão avançadas a um nível que os seres humanos conseguem acessar informações com seus cyber-cérebros. A protagonista Major Motoko Kusanagi é líder da Seção 9, um esquadrão anti-terrorista responsável por combater o crime. A temática principal da história é o que significa ser humano, explorada de uma forma muito filosófica através, principalmente, da Major, que foi tão modificada que tudo de humano que lhe resta é como um fantasma (ghost), em um corpo robótico (o seu shell, concha em inglês).

Ghost in The Shell rendeu muitas adaptações, tanto longas metragens como séries e jogos. Uma das principais adaptações japonesas é o filme de 1995, dirigido por Mamoru Oshii e a versão que mais serviu como base para o longa de 2017. Outras versões são continuações em mangá e filme, como Ghost In The Shell 2: Man/Manchine Interface e Ghost In The Shell 2: The Age of Innocence (2004); e a famosa série Ghost In The Shell: Stand Alone Complex (2003).

GITS01

Descrição da Imagem: Ao lado esquerdo, Motoko Kusanagi no filme animado de 1995, de cabelo curto escuro e olhos azuis, com traços japoneses de animês, olhando para sua mão à sua frente. Do lado direito, Scarlett Johansson, mulher branca de pele pálida, cabelo curto e escuro de pontas azuladas, encarando o vazio na adaptação de 2017.

Continuar lendo

Representatividade: Uma conversa sobre mídia, diversidade e inclusão

Como toda criança, sempre fui fascinada por histórias — tanto as que lia nos livros como as que via na TV e no cinema. Acredito que todas elas contribuíram de alguma forma, por menor que seja, para formar a pessoa que sou hoje. E sei que milhares de pessoas diriam o mesmo sobre o impacto da ficção em suas vidas. Assim, o que quero discutir hoje no blog é o modo como a ficção pode impactar a vida de todas as pessoas, mesmo aquelas que não estão tão intensamente envolvidas com esse universo, e a importância de termos histórias mais inclusivas que reflitam a realidade do mundo em que vivemos. Em outras palavras, a importância da representatividade na ficção.

Rep18

[Descrição da imagem: Montagem com alguns personagens de filmes e séries de TV. Da esquerda para a direita: Korra, do desenho A Lenda de Korra; Kelly e Yorkie, da série Black Mirror; Wil e Vivian, do filme Saving Face; e Chiron, do filme Moonlight – Sob a Luz do Luar]

Continuar lendo